Sistema reconhece padrões em inscrições cuneiformes e permite reduzir de dias para minutos o trabalho de reconstrução de tabuletas hititas fragmentadas
Por Arthur Almeida

Cientistas da Alemanha criaram uma ferramenta capaz de identificar padrões caligráficos em milhões de sinais inscritos há mais de 3 mil anos em tabuletas de argila do antigo Império Hitita. A tecnologia permite reconstruir fragmentos dispersos de documentos antigos, comparar estilos de escrita cuneiforme e até ajudar a datar textos produzidos séculos antes da era comum.
Nomeado de “Palaeographicum”, o sistema usa IA (inteligência artificial) para analisar fotografias digitalizadas de inscrições cuneiformes e localizar sinais escritos de maneira semelhante. A plataforma já trabalha com um acervo de mais de 5 milhões de caracteres preservados em cerca de 70 mil imagens de tabuletas. O objetivo é automatizar a tarefa que, até agora, dependia de análise manual minuciosa feita por especialistas em paleografia e línguas do Antigo Oriente Próximo.
Ferramenta reduz trabalho de dias para minutos
A escrita cuneiforme surgiu na Mesopotâmia e foi usada durante milênios para registrar leis, transações comerciais, rituais religiosos e acontecimentos políticos. Os sinais eram gravados em argila úmida com um estilete, formando marcas em forma de cunha. Ao longo dos séculos, porém, a maior parte das tabuletas se fragmentou, espalhando pedaços por coleções arqueológicas e museus de diferentes países.
Reconstruir esses documentos se tornou um dos maiores desafios dos estudos do Antigo Oriente Próximo. Além das quebras, muitos sinais estão desgastados pelo tempo e podem mudar de aparência dependendo da iluminação usada nas fotografias.
O Palaeographicum tenta resolver justamente esse problema. A IA isola caracteres individuais das imagens, identifica padrões gráficos e organiza os resultados em tabelas comparativas que permitem aos pesquisadores verificar rapidamente semelhanças entre diferentes fragmentos.
Segundo Daniel Schwemer, chefe do Departamento de Estudos do Antigo Oriente Próximo da Universidade de Würzburg e um dos responsáveis pelo projeto, o impacto da ferramenta já é significativo. “O Palaeographicum está mudando radicalmente nosso trabalho; ele nos permite economizar milhares de horas”, afirma, em comunicado divulgado na segunda-feira (18)
De acordo com a equipe, comparar a caligrafia presente em apenas cinco fragmentos de tabuletas costumava exigir cerca de três dias de trabalho especializado. Agora, o mesmo processo pode ser realizado em aproximadamente cinco minutos.
Pequenas diferenças revelam autoria dos escribas
Apesar de a escrita cuneiforme seguir convenções rígidas, os escribas deixavam marcas pessoais perceptíveis em cada documento. Alguns pressionavam o estilete com mais força sobre a argila; outros criavam pequenos floreios ao retirar a ferramenta da superfície. O espaçamento entre os sinais também variava conforme o hábito de cada autor.
Essas diferenças funcionam como uma espécie de assinatura caligráfica, e são justamente elas que a inteligência artificial foi treinada para reconhecer. Os pesquisadores acreditam que isso poderá abrir novas possibilidades para os estudos históricos. Como os estilos de escrita mudavam ao longo do tempo, a ferramenta também pode ajudar a estimar a idade de tabuletas sem datação explícita, contribuindo para reconstruir cronologias do mundo hitita.
O projeto dá continuidade a décadas de digitalização dos estudos sobre a civilização hitita. Há 25 anos, os pesquisadores criaram o Hethitologie-Portal Mainz, um grande acervo online que reúne aproximadamente 30 mil fragmentos de tabuletas de argila, além de transliterações e materiais acadêmicos. Mais tarde, o grupo também desenvolveu sistemas capazes de registrar sinais cuneiformes em 3D e ferramentas de busca textual.
Próximos passos
A base tecnológica do Palaeographicum surgiu no projeto CuKa, desenvolvido entre 2018 e 2023 com financiamento da Fundação Alemã de Pesquisa (DFG). Durante o projeto, especialistas em filologia anotaram manualmente milhares de exemplos para treinar o modelo de IA.
Mesmo já em funcionamento, a ferramenta continua sendo aprimorada. “Estamos constantemente aprimorando o treinamento da IA”, destaca o pesquisador Gerfrid Müller. Segundo ele, a equipe também incorpora sugestões da comunidade internacional de hititologia para melhorar o sistema.
O próximo passo dos cientistas é tornar a IA capaz de reconhecer automaticamente a autoria de textos produzidos por escribas específicos. A expectativa é que isso permita rastrear carreiras inteiras de profissionais da escrita no Império Hitita, identificando como seus estilos mudaram ao longo da vida e em diferentes contextos de trabalho.
“Se alcançarmos esse objetivo, poderemos ter uma visão mais clara do que cada escriba produziu ao longo de suas carreiras profissionais”, destaca Schwemer. “E poderemos compilar uma história social da cultura da escrita hitita.”
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Fonte: Revista Galileu – Globo